Vivos ou mortos?
As pessoas estão mortas ou eu é que tenho excesso de vida?
Todo mundo se cumprimenta com aquelas palavras-chave: Oi, tudo bem? — como assim, que tudo é esse? Seria possível que tudo estivesse bem com alguém? E, se estivesse, a resposta tudo! estaria dizendo sobre o quê? Imagine só a cena de um perguntando ao outro: e aí, tudo bem?, ao que segue a resposta inesperada: não, não está tudo bem. E começa a te contar os problemas que tem?
Somos seres de linguagem, isso sabemos. Mas a linguagem, ao que me consta, teria o compromisso de dizer algo que se deseja dizer. Ou será que não? Qual o motivo para as pessoas repetirem falas, ou gestos e feições, apenas para ocuparem o espaço do vazio na superfície? Sim, superfície, pois são apenas pinceladas de maquiagem: não mostram a face de quem as emite.
Tenho amigos — assim o eram — que, ao me enviarem mensagens, são aquelas prontas de redes sociais. Será que eles creem que aquilo reflete suas intenções de manifestação de afeto? Bem, se refletem, não é o tipo de afeto do qual me sinto merecedora de receber. Mereço outro tipo de coisa, que não essa.
Enfim, vejo a morte rondando a todos e vejo vida em mim. Não tenho problema com a morte ou com os mortos, desde que estejam mortos. Tenho resistência aos mortos-vivos; quero distância deles porque tenho medo do contágio. Não posso demovê-los disso, eu sei. Me esforço para respeitar tais opções e arco com o custo.
O preço que pago me falta, e essa falta completo com uma indignação que me preenche de uma verdade — ainda que só minha.
“Texto de autoria de Cristina Camargo. Todos os direitos reservados”
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