Hoje, na academia, entre o som das esteiras e o corpo que se move, ouvi Clarice dizer que um dia sorriu para um homem belo.
Ela sorriu como quem reconhece a beleza, mas não a deseja possuir.
Sorriu como quem sabe que o instante basta.
Na hora, pensei em mim — e no homem bonito que, às vezes, muda a luz do lugar.
Meu sorriso, diferente do dela, me escapou como um segredo impaciente.
Foi um susto do corpo, um sim sem permissão da razão.
Depois, veio o eco — o pudor, o constrangimento, a pergunta:
“Por que fiz isso?”
Há em mim duas que se olham e se estranham:
a que se permite brilhar e a que teme se queimar.
A primeira deseja ser vista; a segunda quer apagar o reflexo.
Entre as duas, sigo equilibrando a chama — tentando não apagá-la, tentando não me queimar.
Talvez esse sorriso tenha sido o ensaio de uma reconciliação.
A mulher livre que um dia fui acenou para mim —
e, por um instante, eu sorri de volta.
"Texto de autoria de Cristina Camargo. Todos os direitos reservados"
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