domingo, 2 de novembro de 2025

Nota reflexiva – O sorriso e o espelho

 



Hoje, na academia, entre o som das esteiras e o corpo que se move, ouvi Clarice dizer que um dia sorriu para um homem belo.

Ela sorriu como quem reconhece a beleza, mas não a deseja possuir.
Sorriu como quem sabe que o instante basta.

Na hora, pensei em mim — e no homem bonito que, às vezes, muda a luz do lugar.
Meu sorriso, diferente do dela, me escapou como um segredo impaciente.
Foi um susto do corpo, um sim sem permissão da razão.
Depois, veio o eco — o pudor, o constrangimento, a pergunta:
“Por que fiz isso?”

Há em mim duas que se olham e se estranham:
a que se permite brilhar e a que teme se queimar.
A primeira deseja ser vista; a segunda quer apagar o reflexo.
Entre as duas, sigo equilibrando a chama — tentando não apagá-la, tentando não me queimar.

Talvez esse sorriso tenha sido o ensaio de uma reconciliação.
A mulher livre que um dia fui acenou para mim —
e, por um instante, eu sorri de volta.


"Texto de autoria de Cristina Camargo. Todos os direitos reservados"

Referência: 

Imagem: Imagem de BÙI VĂN HỒNG PHÚC por Pixabay 

Livro: Água Viva-Clarice Lispector (Microsoft Word - Clarice Lispector - \301gua Viva.doc)

terça-feira, 23 de setembro de 2025

Crônica – O Relógio Interno e as Férias

 O relógio interno me chama pelas 4h, não tem jeito.

Raros são os dias em que fico na cama até as 7h — e adoro quando isso acontece. A rotina da academia cedinho já era. E não é sem tempo: chega disso. Já basta o ano letivo que impõe horários e disciplina. Nas férias, NÃO.

Leio Ágatha Christie entre uma série e outra. Miss Marple é formidável, que velhinha intrigante com sua expertise em desvendar grandes mistérios. Além dela, o inspetor Hercule Poirot, a quem tive o prazer de acompanhar nos primeiros livros.

Netflix, Prime, Star Plus... caminhos que percorro diariamente para complementar minha aventura com suspense, crimes e dramas. Me emociono, me divirto, me impressiono com tudo o que escolho assistir e vivo cada parte daquilo que vejo. Não sou uma espectadora passiva. Aliás, bem o oposto disso.

Essas férias estão diferentes. Mudamos de casa, de estado, de móveis. Paira no ar uma sensação de não pertencimento cuja dimensão ainda não compreendi. Apenas sinto os pés nas nuvens e imagino estratégias para me aterrar. Corro no campus da universidade que fica ao lado de casa. Cheguei a me matricular em uma academia, mas saí logo pelo excesso de pessoas. Isso me preocupa um pouco: sinto que estou mudada — ou em mudança.

Não tenho mais tolerância com coisas que, em outros tempos, relevava. Busco vínculos com essa cidade, mas ainda não os encontrei. Será que os encontrarei? A situação não me enlouquece nem me deprime, mas creio que, para ser minimamente sociável e um tanto feliz, necessito de conexões. E das boas.

Enquanto isso, as férias seguem me proporcionando despertares com sol e canto de passarinhos na janela do quarto. Talvez ainda me falte um chão firme, mas esse instante simples — tão vivo — já é um pouso possível.


"Texto de autoria de Cristina Camargo. Todos os direitos reservados"

O que o olhar revela?

Há gestos que dispensam palavras, e talvez o mais eloquente deles seja o olhar. Um simples encontro de olhos pode dizer mais do que longas conversas. Às vezes, é nele que se revela a ternura que não se ousa falar, a dor que se tenta esconder ou a alegria que transborda sem pedir licença.

O olhar aproxima, denuncia, acolhe. Ele é um território em que a linguagem se desnuda de convenções e se torna pura presença. Quem nunca sentiu o peso de um olhar atravessando silenciosamente suas defesas? Ou, ao contrário, quem nunca encontrou alívio no brilho acolhedor que nos diz, sem nenhuma palavra: “eu estou aqui”?

No convívio diário, costumamos reduzir o olhar a um gesto automático — quase técnico. Olhamos sem ver, cumprimentamos sem perceber, passamos ao largo sem nos deter. Talvez por isso tanta gente se sinta invisível: porque o olhar dos outros já não repousa sobre si.

Mas há também o olhar que reconstrói. Aquele que não se limita a observar, mas que enxerga — e ao enxergar, legitima a existência. Ele pode oferecer aconchego, pode desafiar, pode inspirar. Um olhar verdadeiro carrega em si um convite à presença mútua, à coragem de ser visto e de ver.

No fim das contas, somos feitos desse entrelaçar de olhos, dessa troca silenciosa que dá sentido ao encontro humano. Talvez devêssemos lembrar, mais vezes, que cada olhar é também um ato de cuidado.


Texto em prosa de autoria de Cristina Camargo. Todos os direitos reservados.


Reflexões Literárias - Ensaios e Inquietações

 Vivos ou mortos?

As pessoas estão mortas ou eu é que tenho excesso de vida?

Todo mundo se cumprimenta com aquelas palavras-chave: Oi, tudo bem? — como assim, que tudo é esse? Seria possível que tudo estivesse bem com alguém? E, se estivesse, a resposta tudo! estaria dizendo sobre o quê? Imagine só a cena de um perguntando ao outro: e aí, tudo bem?, ao que segue a resposta inesperada: não, não está tudo bem. E começa a te contar os problemas que tem?

Somos seres de linguagem, isso sabemos. Mas a linguagem, ao que me consta, teria o compromisso de dizer algo que se deseja dizer. Ou será que não? Qual o motivo para as pessoas repetirem falas, ou gestos e feições, apenas para ocuparem o espaço do vazio na superfície? Sim, superfície, pois são apenas pinceladas de maquiagem: não mostram a face de quem as emite.

Tenho amigos — assim o eram — que, ao me enviarem mensagens, são aquelas prontas de redes sociais. Será que eles creem que aquilo reflete suas intenções de manifestação de afeto? Bem, se refletem, não é o tipo de afeto do qual me sinto merecedora de receber. Mereço outro tipo de coisa, que não essa.

Enfim, vejo a morte rondando a todos e vejo vida em mim. Não tenho problema com a morte ou com os mortos, desde que estejam mortos. Tenho resistência aos mortos-vivos; quero distância deles porque tenho medo do contágio. Não posso demovê-los disso, eu sei. Me esforço para respeitar tais opções e arco com o custo.

O preço que pago me falta, e essa falta completo com uma indignação que me preenche de uma verdade — ainda que só minha.


“Texto de autoria de Cristina Camargo. Todos os direitos reservados”

sexta-feira, 29 de maio de 2020

Tirando o Afeto do Baú: Redescobrindo o Passado (em tempos de pandemia)

De casa, longe do bate-papo na esquina, do café na padaria, dos abraços soltos por aí, a gente tem de descobrir outras fontes de afeto, já que não dá para fazer festa com os amigos.

Fotos e cartas antigas são lembranças guardadas faz anos, que você não olha por falta de tempo? Fotos com os amigos, ex-namorados, pais, filhos, viagens; cartões-postais, cartas de pessoas especiais (eu ainda guardo algumas!) são antídotos certos para espantar o tédio.

Em minha experiência de reclusão, adoro tirar a poeira do passado e curtir tudo o que vem dele. Há lembranças boas, tão boas que dá para sentir hoje a mesma empolgação de antes. Só que junto vem toda a nossa história, e a gente tem de lidar com ela.

Trazer à tona aquela situação esquisita que nos deixou meio tristes pode incomodar, mas também pode ser uma oportunidade de saber se o tempo já se encarregou de transmutar os maus sentimentos em bons.

Quantas histórias já vivemos! Quanto ficou para trás e fugiu de nossa memória! Quanta riqueza a gente tem pra lembrar e pra contar!

Então, se sobra tempo e falta afago, que tal mergulharmos de cabeça em nosso baú de histórias? Imagina trazer tudo pra fora, pro agora, toda a boniteza do passado em um belo embrulho pra presente!


Crônica de autoria de Cristina Camargo. Todos os direitos reservados.


Nota reflexiva – O sorriso e o espelho

  Hoje, na academia, entre o som das esteiras e o corpo que se move, ouvi Clarice dizer que um dia sorriu para um homem belo. Ela sorriu co...