Há gestos que dispensam palavras, e talvez o mais eloquente deles seja o olhar. Um simples encontro de olhos pode dizer mais do que longas conversas. Às vezes, é nele que se revela a ternura que não se ousa falar, a dor que se tenta esconder ou a alegria que transborda sem pedir licença.
O olhar aproxima, denuncia, acolhe. Ele é um território em que a linguagem se desnuda de convenções e se torna pura presença. Quem nunca sentiu o peso de um olhar atravessando silenciosamente suas defesas? Ou, ao contrário, quem nunca encontrou alívio no brilho acolhedor que nos diz, sem nenhuma palavra: “eu estou aqui”?
No convívio diário, costumamos reduzir o olhar a um gesto automático — quase técnico. Olhamos sem ver, cumprimentamos sem perceber, passamos ao largo sem nos deter. Talvez por isso tanta gente se sinta invisível: porque o olhar dos outros já não repousa sobre si.
Mas há também o olhar que reconstrói. Aquele que não se limita a observar, mas que enxerga — e ao enxergar, legitima a existência. Ele pode oferecer aconchego, pode desafiar, pode inspirar. Um olhar verdadeiro carrega em si um convite à presença mútua, à coragem de ser visto e de ver.
No fim das contas, somos feitos desse entrelaçar de olhos, dessa troca silenciosa que dá sentido ao encontro humano. Talvez devêssemos lembrar, mais vezes, que cada olhar é também um ato de cuidado.
Texto em prosa de autoria de Cristina Camargo. Todos os direitos reservados.
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